
Extinguir os mosquitos: solução ousada ou risco ecológico?
Comentário do investigador Hugo Costa Osório à proposta de erradicação de mosquitos discutida no jornal Público–
No passado dia 7 de junho de 2025, o jornal Público publicou um artigo provocador intitulado “Será que devíamos extinguir os mosquitos? Agora já podemos.”, levantando uma questão que, apesar de radical, ganha crescente relevância no contexto das alterações climáticas e das crises sanitárias globais.
Em resposta a esse artigo, o investigador Hugo Costa Osório (ISAMB e Laboratório Associado TERRA) publica no site do TERRA uma reflexão crítica sobre o tema, considerando as implicações éticas, ecológicas e científicas associadas à utilização de tecnologias avançadas no controlo de vetores, como os mosquitos.
A ilusão da solução simples
Na sua análise, o investigador reconhece que, à primeira vista, a ideia de erradicar espécies de mosquitos — como Aedes aegypti ou Anopheles gambiae — pode parecer apelativa, especialmente quando se estima que estes insetos sejam responsáveis por mais de 700 mil mortes anuais, ligadas a doenças como malária, dengue, febre amarela ou Zika.
Contudo, relembra que a história da luta contra os mosquitos está marcada por soluções falhadas, como o uso maciço do DDT no século XX, que resultou em resistência biológica e danos ambientais significativos. Segundo o investigador, essa lição histórica deve servir de alerta para os riscos de tecnologias mal avaliadas ou aplicadas de forma precipitada.
A nova fronteira: biotecnologia e gene drive
O texto destaca o potencial revolucionário, mas também os perigos reais, de novas técnicas como a libertação de mosquitos estéreis, a utilização da bactéria Wolbachia, e, sobretudo, o gene drive — um método que permite introduzir e propagar alterações genéticas numa população com o objetivo de controlar ou eliminar uma espécie.
Para Hugo Osório, o gene drive representa uma fronteira ousada da biotecnologia que exige extrema cautela: “uma tentativa de reprogramar a natureza para proteger a saúde humana. No entanto, levanta sérias preocupações éticas e ecológicas. A sua aplicação pode ultrapassar fronteiras geográficas e ecológicas, sendo difícil de reverter uma vez iniciada, exigindo uma abordagem cautelosa, com rigor científico, transparência, com o envolvimento das comunidades e uma governança internacional”.
Além disso, estes organismos geneticamente modificados (OGM) enfrentam barreiras legais, especialmente na União Europeia, onde não existe ainda um enquadramento jurídico claro, mesmo em situações de emergência em saúde pública.
O caso português: vigilância ativa e responsabilidade científica
O comentário realça que Portugal não está imune a esta problemática. A presença crescente de espécies como o Aedes albopictus e Aedes aegypti é uma preocupação concreta. O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), através da Rede de Vigilância de Vetores (REVIVE), colabora com a Direção-Geral da Saúde em ações de monitorização e prevenção. Projetos que recorrem à libertação de mosquitos estéreis ou à tecnologia Wolbachia já estão em curso.
Para Hugo Osório, é essencial manter uma abordagem científica rigorosa e transparente, que envolva as comunidades locais, respeite os princípios da precaução e ética, e promova uma governança global responsável sobre o uso destas ferramentas.
“Extinguir os mosquitos pode parecer uma resposta simples para um problema complexo — mas a natureza raramente responde de forma linear ou previsível.”
Um debate que não podemos ignorar
O comentário termina com um apelo à lucidez: as novas ferramentas biotecnológicas oferecem oportunidades sem precedentes, mas exigem escolhas informadas, legislação clara e consciência coletiva.
A reflexão de Hugo Costa Osório constitui um importante contributo para o debate científico, ético e político sobre o futuro do controlo de doenças transmitidas por vetores.
Pode ler o comentário original do investigador aqui.
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