
Especialista do ISAMB/TERRA destaca o impacto da gripe das aves na saúde pública e o seu potencial pandémico
Confrontado com as recentes notícias sobre surtos de gripe aviária em Portugal, o Professor do ISAMB/TERRA Francisco Antunes reforça preocupação com o risco global do vírus H5N1 e a necessidade de uma abordagem integrada para o combater.
A gripe das aves continua a ser uma ameaça global à saúde pública, com o potencial de evoluir para uma pandemia, alerta o Professor do Instituto de Saúde Ambiental (ISAMB) e membro do Laboratório Associado TERRA, Francisco José Nunes Antunes. A circulação crescente do vírus H5N1 em aves selvagens e de criação, bem como a sua transmissão a outros animais e, ocasionalmente, a humanos, sublinha a importância de uma abordagem integrada para combater esta ameaça.
Potencial pandémico?
Os primeiros casos de gripe aviária por H5N1 surgiram em Hong Kong, em 1997, sendo controlados com o abate de 1,5 milhões de aves. No entanto, em 2003, o vírus emergiu com características panzoóticas, afetando aves domésticas com consequências económicas alarmantes e um potencial de transmissão interespécies que levou a infeções humanas com uma mortalidade de cerca de 50%. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o H5N1 constitui uma ameaça à segurança sanitária global, com potencial pandémico significativo. Apesar de, até 2023, ter causado apenas 876 casos humanos e 458 mortes, estima-se que, no contexto de uma pandemia, poderia provocar entre 5 a 150 milhões de mortes globalmente.
De acordo com o Professor do ISAMB/TERRA, Francisco Antunes, apesar de ser improvável uma pandemia provocada pelo H5N1, devido à sua baixa eficiência na transmissão entre humanos, o risco não deve ser subestimado. A história das pandemias gripais, como a gripe espanhola (1918-1919), que causou 20 a 40 milhões de mortes, e a gripe asiática (1957-1958), com 1 a 4 milhões de vítimas mortais, demonstra o impacto devastador que uma mutação ou recombinação genética de vírus influenza pode ter na população mundial. O Professor lembra ainda que, a identificação recente de H5N1 nos Estados Unidos da América e noutros países a nível global, no gado leiteiro e em suínos, levanta o risco de rearranjo de vírus aviários e humanos, criando novas espécies com potencial pandémico.
Em relação à infeção humana pelo vírus influenza H5N1, Francisco Antunes identifica alguns enigmas que desafiam a comunidade científica:
- Apesar de vários surtos maciços em aves de criação em áreas densamente populosas e consequente exposição do homem ao vírus, o número de casos em humanos tem sido relativamente pequeno, tal como aconteceu em Hong Kong, em 1997, alguns deles sintomáticos ligeiros ou infeções assintomáticas, sugerindo ineficiente transmissão das aves de criação infetadas ao homem;
- Nos casos de Hong Kong, em 1997, apesar da maioria deles se relacionar com a exposição a aves vivas nos mercados, em cerca de 30% não se identificou a fonte de infeção;
- Entre os casos tem-se registado um número significativo em agregados familiares, sendo difícil de se saber se tal representa infeção proveniente de uma fonte ambiental comum ou é limitada a transmissão homem-a-homem;
- O registo da incidência e das taxas de mortalidade baixas naqueles com mais de 40 anos de idade. Tendo em consideração o facto de que a maioria dos casos de H5N1 está associada ao contacto próximo com aves e outros animais e com ambientes contaminados, tal não é suficiente para explicar a epidemiologia da doença em humanos, admitindo-se, então, que fatores genéticos de suscetibilidade e mecanismos desconhecidos de resistência do hospedeiro possam estar envolvidos no processo.
Abordagem integrada “One Health”
O potencial pandémico do H5N1 exige maior vigilância em populações animais e humanas e uma resposta global coordenada para prevenir futuras pandemias.
Tal como a Professora Madalena Lordelo (LEAF/TERRA) destacou na notícia publicada ontem no site do TERRA a relevância de uma abordagem integrada para combater os surtos de gripe aviária (ler notícia aqui), o médico especialista em doenças infeciosas, Francisco Antunes, também destaca que o conceito One Health “é essencial para enfrentar eficazmente a gripe das aves, para prevenir a transmissão nas espécies e para novas espécies, para a redução da propagação entre os animais e para a prevenção das infeções no homem”. “Apesar do risco de infeção para a população em geral ser baixo, o risco da infeção é moderado para pessoas expostas a aves, mamíferos ou ambientes contaminados”, sublinha Francisco Antunes.
O Professor refere ainda que, embora existam vacinas veterinárias contra a gripe aviária H5N1 para galinhas, as aves de criação ainda não são vacinadas por rotina devido à sua eficácia limitada e falta de contínuo. Já para os humanos, várias vacinas contra o H5N1 estão disponíveis ou em desenvolvimento para grupos de risco ocupacional, mas não são recomendadas como estratégia global devido ao reduzido número de infeções humanas. Além disso, “o vírus da gripe H5N1 sofre mutações contínuas, o que significa que a eficácia de uma vacina depende da estirpe circulante e admite-se que possa não ser eficaz numa pandemia futura de H5N1”. No entanto, o Professor revela que os laboratórios estão a ser preparados para a produção rápida de grandes quantidades de uma vacina atualizada e específica para uma futura estirpe pandémica.
A pandemia pode ser improvável, mas os impactos económicos, ecológicos e de saúde pública já são uma realidade. Para minimizar os riscos, Francisco Antunes reforça a necessidade de vigilância global, em particular em populações em que a transmissão animal-a-animal ocorre (aves de criação e gado leiteiro) e monitorização próxima em animais e humanos.
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