
© Júlio Barreiros | Laboratório Associado TERRA
Professora do LEAF/TERRA alerta para o impacto global da gripe das aves e a urgência de medidas preventivas
Madalena Lordelo sublinha que as raças autóctones e as explorações caseiras, frequentemente associadas a métodos de produção mais sustentáveis, podem não oferecer grande vantagem no combate à propagação do vírus da gripe aviária.
Nos últimos dias têm saído notícias sobre surtos de gripe aviária em Portugal, com a deteção de novos casos em algumas explorações avícolas e em aves selvagens. Este cenário tem gerado preocupações tanto nos setores da avicultura quanto na saúde pública, com destaque para a necessidade urgente de reforçar as práticas de biossegurança no país. Até à data, não há registo de infeções humanas em Portugal, mas as autoridades de saúde, como a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e a Direção-Geral da Saúde (DGS), têm monitorizado a situação e reforçado medidas de controlo.
Os custos económicos e os riscos associados
A Professora Madalena Lordelo, investigadora do LEAF – Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food e membro do Laboratório Associado TERRA, é especialista em ciência avícola e tem acompanhado os recentes surtos de gripe aviária. Madalena Lordelo destaca os graves impactos económicos dos surtos de gripe aviária, como prejuízos para produtores, interrupção de exportações e custos acrescidos com vacinas, tratamentos e biossegurança, afetando toda a cadeia de abastecimento. A deteção de casos em Lisboa já levou à proibição de exportar carne de frango e ovos para Macau e Hong Kong. “A gripe aviária pode ter consequências económicas graves, especialmente em regiões cuja economia depende significativamente do setor avícola”, alerta a Professora.
Madalena Lordelo salienta a complexidade da transmissão do vírus, que pode ocorrer em várias etapas, desde aves selvagens para aves domésticas, até à possível transmissão para seres humanos e outras espécies:
- De ave para ave: A gripe aviária é comum entre aves, especialmente em aves selvagens, onde os vírus da Influenza A existem no sistema digestivo e são transmitidos através de dejetos, saliva e secreções. Aves domésticas, como galinhas, perus e patos, podem ser infetadas ao partilhar água ou ter contacto com dejetos de aves selvagens, levando à possível mutação para formas de alta patogenicidade, como o H5N1;
- De aves para outras espécies: O vírus pode infetar mamíferos, como demonstrado pela transmissão do H5N1 para vacas leiteiras, destacando a sua capacidade de ultrapassar barreiras entre espécies;
- De aves para humanos: A transmissão ocorre através do contacto direto com aves infetadas, secreções ou materiais contaminados. Este ano, foi registado nos EUA o primeiro caso humano de H5N1, resultando em morte, numa pessoa com condições médicas preexistentes e exposição a aves selvagens e domésticas;
- Humano para humano: Ainda não se verificou, mas pode ocorrer se o vírus sofrer mutações que permitam transmissão eficiente entre humanos, com potencial para surtos pandémicos.
Embora o risco para a população em geral seja baixo, pessoas que trabalham com aves ou gado têm maior exposição ao vírus, destaca a especialista.
Os efeitos nos diferentes sistemas de produção
A Professora do LEAF/TERRA também aborda o impacto da propagação da gripe aviária em diferentes sistemas de produção, desde os intensivos até aos sistemas biológicos e caseiros. Nos sistemas intensivos, a elevada densidade populacional exige rigorosas medidas de biossegurança para conter a rápida disseminação do vírus. Nos sistemas extensivos e biológicos, o acesso ao ar livre aumenta o risco de contacto com aves selvagens, reservatórios naturais do vírus, limitando a eficácia no controlo da propagação. Já em explorações caseiras com raças autóctones, apesar da maior resistência à infeção, estas aves podem atuar como reservatórios do vírus, perpetuando a sua circulação, devido ao contacto com aves selvagens. No caso das explorações caseiras, a especialista realça ainda que “o acesso ao ar livre, embora benéfico em diversos contextos, pode aumentar a suscetibilidade das aves domésticas à propagação do vírus, devido ao maior risco de contacto com aves selvagens portadoras do vírus”.
Neste contexto, as medidas de biossegurança nos sistemas de produção avícola desempenham um papel determinante na mitigação da disseminação de doenças, como a gripe aviária, especialmente nos sistemas intensivos que utilizam estirpes comerciais de alta produção, menos rústicas que as raças puras. Para Madalena Lordelo “é fundamental investir em medidas de biossegurança preventivas, como o forte controlo de acesso aos aviários e investir na implementação de programas de formação para os produtores, de modo a reduzir significativamente os riscos associados à propagação da doença”.
O papel da ciência e da vigilância
Com a deteção de casos em várias regiões, incluindo Lisboa, e o impacto global da doença, a Professora Madalena Lordelo sublinha a importância de uma abordagem integrada para combater o surto. “A colaboração entre produtores, investigadores e decisores políticos será determinante para garantir a resiliência do setor avícola perante este desafio”, afirma.
Para Madalena Lordelo, o aparecimento da gripe aviária destaca a interconexão entre a vida selvagem, os animais domésticos e a saúde humana, sublinhando a importância de uma abordagem integrativa “One Health”.
O Laboratório Associado TERRA sublinha a importância da vigilância epidemiológica e da investigação científica como pilares fundamentais no combate a surtos de doenças. É crucial aprofundar o estudo das dinâmicas de transmissão de vírus para desenvolver estratégias preventivas que evitem níveis pandémicos e minimizem os impactos na saúde pública e na economia.
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