
Libélula imperador-azul (Anax imperator) © Júlio Barreiros | Laboratório Associado TERRA
Diretor executivo do TERRA sublinha a importância de reverter o estado de ameaça dos animais dependentes de água doce
Em reação ao recente estudo da Nature que destaca a crise dos ecossistemas de água doce, o diretor executivo do TERRA alerta para os riscos, apela à ação e propõem soluções para a recuperação desses habitats essenciais.
Estudo publicado na revista Nature revelou que 24% das espécies de animais de água doce estão em risco de extinção, destacando a fragilidade dos ecossistemas aquáticos e a necessidade urgente de ações para a sua preservação – consultar estudo aqui. Para o diretor executivo do Laboratório Associado TERRA, Paulo Branco, a perda de biodiversidade de água doce não é apenas uma questão ambiental, mas também um risco significativo para as sociedades humanas, que dependem dos serviços dos ecossistemas aquáticos. “É hora de enfrentarmos a realidade e tomarmos medidas eficazes para proteger, preservar e recuperar os ecossistemas de água doce e as espécies que deles dependem”, afirma.
Ameaças aos ecossistemas de água doce
Uma notícia recentemente publicada no jornal Público destacou os resultados alarmantes do estudo da Nature “One-quarter of freshwater fauna threatened with extinction”, que revela que um quarto das espécies de animais de água doce está em alto risco de extinção. A notícia divulgada pelo Público coloca em evidência que, além da perda de biodiversidade, o declínio dos ecossistemas aquáticos compromete serviços vitais, como a regulação de cheias e o abastecimento de água potável – ler notícia aqui.
Os ecossistemas de água doce, que ocupam menos de 1% da superfície terrestre e contêm apenas 0,01% da água do planeta, suportam cerca de 10% de todas as espécies animais conhecidas, incluindo metade das espécies de peixes e um terço dos vertebrados. No entanto, este estudo da Nature revelou que, entre 1970 e 2015, 35% das zonas húmidas desapareceram, acelerando a perda de biodiversidade. “Todas as ações humanas executadas em ambiente terrestre têm um impacto direto nos sistemas de água doce”, salienta Paulo Branco, diretor executivo do TERRA. “Desde o controlo de cheias e fornecimento de água potável até à mitigação das alterações climáticas, os serviços prestados por estes ecossistemas são indispensáveis e têm um impacto económico enorme.”
Entre as várias conclusões deste estudo, o diretor executivo do TERRA destaca as principais ameaças identificadas, sublinhando a sua interligação com as atividades humanas:
- Poluição: A contaminação por fertilizantes, pesticidas, esgotos e resíduos industriais afeta significativamente a qualidade da água;
- Barragens e Gestão da Água: A construção de barragens e a extração excessiva de água comprometem a conectividade das redes hidrográficas, alterando habitats e impedindo migrações essenciais para muitas espécies;
- Alterações Climáticas: Fenómenos como secas prolongadas e eventos climáticos extremos têm um impacto adverso nos habitats aquáticos, exacerbando as condições de sobrevivência das espécies;
- Espécies Exóticas Invasoras: A introdução de espécies não nativas altera o equilíbrio ecológico, competindo com as espécies autóctones e, muitas vezes, levando-as à extinção.
Proteção dos ecossistemas aquáticos
O Laboratório Associado TERRA tem alertado para os crescentes perigos que afetam os sistemas de água doce e contribuído com propostas concretas para a recuperação de habitats e espécies (flora e fauna), particularmente no continente europeu. Em Portugal, onde muitos sistemas hídricos apresentam um clima mediterrânico e uma elevada fragmentação artificial, o desafio é ainda maior. “Devido à escassez de água, temos sistemas altamente fragmentados artificialmente e com elevada extração de água o que, associado a outras pressões antropogénicas presentes nos sistemas, exacerbam o stress a que as espécies já estavam naturalmente sujeitas”, reforça Paulo Branco.
Para reverter o estado de ameaça das espécies de água doce, o TERRA propõe um conjunto de medidas prioritárias:
- Redução da Poluição: Implementar práticas agrícolas sustentáveis que minimizem o uso de químicos e melhorar o tratamento de efluentes urbanos e industriais para preservar a qualidade da água.
- Gestão Sustentável dos Recursos Hídricos: Rever a construção de novas barragens e promover a remoção de barreiras obsoletas para restaurar a conectividade dos rios e assegurar caudais naturais e cursos de água livres.
- Adequação das culturas: Garantir que as culturas agrícolas são adequadas a uma exploração sustentável e com uso de água condicente com as capacidades do sistema, nem todo o território deve depender de regadio intensivo que obriga a uma grande retenção e extração de água dos sistemas.
- Monitorização e Conservação de Espécies: Desenvolver programas de monitorização das populações de espécies nativas.
- Controlo de Espécies Invasoras: Estabelecer planos de ação para prevenir a introdução e propagação de espécies exóticas invasoras, protegendo as espécies nativas e mantendo o equilíbrio ecológico.
- Educação e Sensibilização: Promover campanhas de sensibilização junto às comunidades locais sobre a importância dos ecossistemas de água doce e as medidas necessárias para sua conservação, incentivando a participação ativa na proteção desses habitats.
“De forma a garantirmos um futuro sustentável para as gerações futuras, temos a obrigação de não fechar os olhos e agir”, apelou o diretor executivo do TERRA. “A comunidade científica tem o conhecimento e está disponível para contribuir ativamente para reverter este estado de ameaça em que estão os habitats e espécies. Tem de haver vontade política, mas esta deve ser uma prioridade.”
Com um forte compromisso em promover melhores políticas públicas, o TERRA continuará a trabalhar para reverter as pressões sobre os ecossistemas de água doce e recuperar a biodiversidade, assegurando um futuro mais resiliente para as pessoas e para o planeta.
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Paulo Branco é biólogo, doutorado em Engenharia Florestal, e é diretor executivo do Laboratório Associado TERRA. Lidera uma linha de investigação em conectividade e restauro fluvial. Desenvolveu o primeiro índice para a conservação de peixes estuarinos em Portugal e realizou a primeira análise quantitativa da conectividade funcional numa bacia hidrográfica europeia. Coordenou, para a Comissão Europeia, a primeira análise à escala continental sobre as necessidades e potencialidades do restauro de habitats de água doce, considerando todos os habitats e espécies de interesse comunitário dependentes de água doce. Além disso, liderou a primeira avaliação da vulnerabilidade das comunidades de peixes de água doce nativos em mais de 1.000 bacias hidrográficas europeias, abrangendo mais de 500 espécies.
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