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No primeiro plano temos a máquina rotativa usada para separar a alga do excesso de areia, antes de ser colocada no forno.
Foto: Nuno Gonçalves / Laboratório Associado TERRA

TERRA e municípios testam no ISA solução inovadora para transformar alga invasora em biofertilizante

Investigadores do CEF e do LEAF apresentam no ISA o primeiro forno de biochar da Europa dedicado ao processamento de Rugulopteryx okamurae.

O Instituto Superior de Agronomia (ISA) recebeu no passado dia 8 de maio, representantes das Câmaras Municipais de Cascais, Sintra, Lagoa e Portimão, numa sessão de trabalho dedicada à demonstração de soluções inovadoras para o aproveitamento da alga invasora Rugulopteryx okamurae (Ro).

A proliferação da Rugulopteryx okamurae tem provocado impactos ambientais, económicos e sociais significativos no litoral português — desde a perda de biodiversidade marinha à acumulação de grandes volumes de biomassa nas praias, com maus odores, impacto no turismo e constrangimentos para atividades como a pesca, o mergulho ou o surf. Estima-se que, só no último ano, tenham sido recolhidas cerca de 50.000 toneladas de alga nas praias do Algarve e de Cascais.

É neste contexto que se desenvolve a colaboração entre o LEAF — Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food — e o Centro de Estudos Florestais (CEF), unidades de investigação do Laboratório Associado TERRA sediadas no ISA, a startup OffKelp e os municípios de Cascais, Sintra, Lagoa e Portimão. O objetivo comum é transformar este problema ambiental urgente numa oportunidade de inovação e sustentabilidade, estudando novas aplicações de valor para a biomassa recolhida.

Transformar um problema ambiental numa oportunidade

A iniciativa integra-se na Estratégia Nacional para a Gestão da Macroalga Invasora Rugulopteryx okamurae, que mobiliza entidades públicas, académicas e empresariais para enfrentar os impactos ambientais e operacionais causados pela espécie. Desde junho de 2024, o ISA, a Câmara Municipal de Cascais e a OffKelp mantêm uma parceria para analisar a viabilidade de transformar esta biomassa em produtos de valor acrescentado, como biofertilizantes.

Os investigadores do TERRA têm vindo a estudar novas aplicações para as algas invasoras que se acumulam nas praias, prejudicando a biodiversidade, afastando peixes, impactando o turismo e podendo causar reações cutâneas. O objetivo é transformar este resíduo marinho num recurso útil, contribuindo para soluções sustentáveis e economicamente viáveis.

Fotos: Nuno Gonçalves / Laboratório Associado TERRA

Primeiro forno de biochar da Europa dedicado ao processamento de Rugulopteryx okamurae

O biochar, termo derivado do inglês biomass (biomassa) e char (material carbonizado), é um material rico em carbono, semelhante a um carvão vegetal, produzido através do aquecimento de biomassa em condições de pouco oxigénio (pirólise), sendo utilizado sobretudo para melhorar a qualidade dos solos e promover o sequestro de carbono (em vez da tradicional utilização como combustível).

O forno de biochar apresentado no ISA — o primeiro deste tipo instalado na Europa — foi financiado pela Offkelp e concebido por Angélica de Cássia Carneiro e Sálvio Rodrigues do grupo de investigação LAPEM da Universidade Federal de Viçosa no Brasil, em colaboração com Solange Araújo (CEF). Este forno veio responder aos desafios colocados pela Rugulopteryx okamurae, cuja elevada concentração de enxofre e cloro inviabiliza o uso de equipamentos metálicos devido à corrosão. Construído em alvenaria cerâmica e com um volume interno de 1 m³, o sistema permite uma carbonização de baixo custo e elevada eficiência, diminuindo drasticamente a emissão de gases com efeito de estufa.

O processo ocorre a temperaturas até aos 400ºC, funciona com alimentação a madeira e decorre ao longo de 1,5 a 2 dias, seguido de um período de arrefecimento hermético de cerca de 48 horas para evitar a entrada de oxigénio. Em testes anteriores com biomassa de madeira, o sistema apresentou um rendimento de 33% na produção de biochar, demonstrando o seu potencial para a valorização sustentável da alga invasora.

Para Duarte Neiva, investigador do CEF/TERRA e supervisor científico do projeto, o forno representa uma solução inovadora para um desafio técnico complexo:
“É um sistema aparentemente rudimentar, mas não de baixa tecnologia estando altamente otimizado para lidar com biomassas cuja composição é potencialmente corrosiva.”

Fotos: Nuno Gonçalves / Laboratório Associado TERRA

O compromisso do TERRA com o território

A visita de dia 8 de maio, promovida pela bióloga da Câmara de Cascais Margarida Ferreira, contou com a presença da Presidente do Conselho de Coordenadores do TERRA, Teresa Ferreira, do diretor executivo do TERRA, Paulo Branco, da responsável científica do consórcio ISA-Offkelp-Câmara de Cascais no ISA, Isabel Sousa, do CEO da OffKelp, Pedro Melo, do engenheiro Carlos de Sousa, dos responsáveis científicos do projeto — o doutorando Pedro Coelho e os seus supervisores Duarte Neiva (CEF), Rita Fragoso (LEAF) e Sheyma Khemiri (LEAF) — bem como de representantes das Câmaras Municipais de Cascais, Sintra, Lagoa e Portimão.

O TERRA, através das suas unidades de investigação LEAF e CEF, está a contribuir com conhecimento técnico científico, capacidade laboratorial e apoio direto aos municípios na procura de soluções sustentáveis.

Para Paulo Branco, diretor executivo do TERRA, esta iniciativa demonstra o papel da ciência aplicada na resposta a desafios ambientais concretos:
“O TERRA existe para responder aos desafios reais do território, e é isso que continuamos a fazer. Tal como no nosso Encontro Anual, onde promovemos o debate nacional sobre os eventos extremos com a Estrutura de Missão ‘Reconstrução da região Centro do País’, também aqui reafirmamos o nosso compromisso: contribuir ativamente para solucionar os problemas ambientais que afetam Portugal. Esta colaboração com as autarquias e com os nossos parceiros científicos e empresariais demonstra que a ciência aplicada pode — e deve — estar ao serviço das comunidades e do poder local.”

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