Início / Notícias
Foto: Júlio Barreiros | Laboratório Associado TERRA
A revista Wilder destacou recentemente um marco importante para a micologia em Portugal: a revisão da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030 (ENCNB 2030), aprovada a 17 de junho por Resolução do Conselho de Ministros n.º 125/2026 e publicada em Diário da República, prevê a elaboração, pela primeira vez, de um inventário nacional de fungos e de uma Lista Vermelha que avalie o estado de conservação destas espécies em Portugal. Esta medida resulta, em grande parte, das contribuições diretas de Susana Gonçalves e Susana Cunha, investigadoras do Centro de Ecologia Funcional (CFE) e membros do Laboratório Associado TERRA, que têm vindo a defender publicamente a urgência deste reconhecimento.
Susana Gonçalves e Susana Cunha têm vindo a alertar para a urgência de colmatar as lacunas no conhecimento sobre os fungos em Portugal. Já em abril deste ano, as duas investigadoras defenderam publicamente a necessidade de elaborar uma lista vermelha nacional com o envolvimento de micólogos profissionais e amadores, recorrendo à ciência cidadã como ferramenta de recolha de dados – notícia aqui.
As investigadoras sublinham que, apesar de a Europa possuir uma tradição micológica considerável, Portugal carece de muita informação nesta área — e parte daquela que existe encontra-se dispersa em herbários (fungários) cujos dados não estão digitalizados. A par da lista vermelha, Susana Gonçalves e Susana Cunha defendem a necessidade de financiar a investigação micológica de base, promover inventariações da distribuição das espécies e digitalizar as coleções de referência existentes.
Os fungos e o seu papel insubstituível nos ecossistemas
A ENCNB 2030 reconhece que os fungos desempenham funções essenciais para a saúde dos ecossistemas: mantêm a fertilidade dos solos através da decomposição de matéria orgânica, estabelecem associações micorrízicas com as raízes da maioria das espécies vegetais — facilitando a absorção de nutrientes e água —, e contribuem para o sequestro de carbono. Ainda assim, trata-se de um grupo que tem sido historicamente negligenciado, tanto a nível global como nacional.
Estima-se que existam no mundo cerca de 2,5 milhões de espécies de fungos, das quais apenas aproximadamente 155 000 foram descritas para a Ciência. Portugal não dispõe ainda de uma lista vermelha que avalie o estado de conservação destas espécies no seu território.
O que prevê a ENCNB 2030
A nova estratégia estabelece como medida concreta a elaboração do inventário nacional de fungos e da primeira Lista Vermelha de fungos de Portugal, com prioridade para as espécies com funções críticas nos ecossistemas — micorrízicas e decompositoras — e para as espécies com valor económico para as comunidades locais. A lista deverá estar publicada até 2030, seguindo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A entidade responsável pela sua condução será o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), com financiamento através de fundos europeus e do Fundo Ambiental, e com a participação de organizações não governamentais e investigadores científicos.
Ciência Cidadã com reconhecimento oficial
A revisão da ENCNB 2030 traz ainda uma novidade estrutural: o reconhecimento oficial da Ciência Cidadã como ferramenta transversal de monitorização da biodiversidade. Portugal compromete-se a ter em funcionamento, até 2028, uma Plataforma Nacional de Ciência Cidadã, com plataformas digitais interoperáveis, protocolos de validação científica e integração dos dados nos sistemas nacionais de informação sobre espécies e habitats.
O envolvimento de membros do Laboratório Associado TERRA neste processo é um exemplo concreto da forma como a investigação científica de excelência pode influenciar as políticas públicas. A presença de Susana Gonçalves e Susana Cunha neste esforço nacional reflete o compromisso do TERRA com a sustentabilidade dos ecossistemas e com a produção de conhecimento que vai além da academia.
Leia a reportagem completa na revista Wilder: Portugal compromete-se a fazer a primeira lista vermelha de fungos até 2030
Resolução do Conselho de Ministros n.º 125/2026, de 17 de junho — Diário da República
Partilhe esta notícia:
DOI 10.54499/LA/P/0092/2020
Copyright Labterra 2024 © By Ação360
DOI 10.54499/LA/P/0092/2020