
Figure 4. Restoration potential Index in river restoration units (R2Us). EU MS – European Union Member States (current and former).
Onde restaurar primeiro? Investigadores do TERRA criam mapa que mostra onde o restauro de rios e zonas húmidas traz mais benefícios à sociedade
Metodologia publicada numa revista científica internacional ajuda os decisores a pôr em prática a Lei do Restauro da Natureza nos ecossistemas de água doce, depois de Portugal ter sido um dos primeiros países a entregar o seu Plano Nacional de Restauro.
Terminou há poucas semanas o prazo para os Estados-membros da União Europeia entregarem a Bruxelas os seus Planos Nacionais de Restauro. Portugal foi o terceiro país a fazê-lo, a 28 de agosto. Segue-se agora a fase de decidir onde agir. Investigadores do Laboratório Associado TERRA desenvolveram uma ferramenta que responde a essa pergunta para os ecossistemas de água doce: um mapa que identifica, em todo o território da UE, as zonas onde o restauro ecológico gera maior retorno em serviços de ecossistema – ou seja, mais benefícios para a sociedade.
O trabalho, intitulado “Spatial assessment of co-benefit restoration priorities for freshwater ecosystems in Europe”, foi publicado na revista científica Ecosystems and People. A equipa partiu de uma pergunta simples: “Onde restaurar de forma a maximizar os benefícios para a sociedade?”
Ecossistemas valiosos, mas cada vez mais degradados
Rios, lagos e zonas húmidas estão entre os ambientes com maior biodiversidade e maior importância funcional do planeta. Garantem água, regulam cheias, retêm nutrientes e sustentam atividades como a pesca e o turismo. No entanto, estão a degradar-se rapidamente devido a um conjunto complexo de pressões ambientais e humanas.
As políticas europeias procuram inverter esta tendência, mas os esforços de restauro são muitas vezes pensados à escala de um troço de rio ou de um único projeto. Falta uma visão de conjunto que permita definir estratégias de gestão a larga escala.
De dados complexos a um mapa que todos conseguem ler
Os investigadores do TERRA desenvolveram uma metodologia em quatro etapas que combina dados sobre o estado dos ecossistemas com a sua capacidade de fornecer serviços à sociedade. O resultado é um Índice de Potencial de Restauro, representado num mapa. De entre todas as zonas que precisam de restauro, o mapa destaca as que dão o maior retorno em serviços de ecossistema se forem alvo de intervenção.
O mapa é, em si mesmo, uma ferramenta de gestão. Transforma informação quantitativa complexa num suporte visual que qualquer decisor político ou técnico da administração consegue interpretar, o que facilita a escolha e a hierarquização das ações de restauro.
“Este trabalho permite aos países priorizar o restauro de sistemas de água doce. Conseguimos determinar onde é que o restauro é mais fácil de fazer e onde existe maior potencial de benefício para a sociedade. É uma ferramenta útil para gerir os ecossistemas e determinante para a versão final dos planos nacionais de restauro.” – Paulo Branco, diretor executivo do Laboratório Associado TERRA, investigador CEF/TERRA.
Um contributo direto para a aplicação da Lei do Restauro
O Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, conhecido como Lei do Restauro da Natureza, obriga os Estados-membros a aplicar medidas de restauro em pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas da UE até 2030, e em todos os ecossistemas que delas necessitem até 2050. Prevê também a recuperação de pelo menos 25 mil quilómetros de rios de curso livre.
Com metas desta dimensão, saber onde começar é decisivo. Com o plano português já entregue, a ferramenta desenvolvida pelos investigadores do TERRA pode apoiar a passagem do planeamento à ação, ajudando a otimizar a aplicação da lei nos ecossistemas fluviais e reforçando o diálogo entre a ciência e a administração pública.
Artigo completo: https://doi.org/10.1080/26395916.2026.2716152
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