Exposição – 35 Postais de Natal de Jorge Paiva
Exposição baseada nos 35 Postais de Natal criados, escritos e enviados pelo
Professor Jorge Paiva investigador do CFE – Centre for Functional Ecology.
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Nos últimos 35 anos, Jorge Paiva tem feito do Natal um momento de reflexão partilhada, oferecendo um postal da sua autoria — um gesto simples, mas profundamente generoso e consistente com o seu percurso.
Contudo, estes postais não nascem de uma celebração despreocupada. Pelo contrário, são alertas claros e inquietantes sobre problemas planetários cada vez mais urgentes, muitos deles provocados pela forma como o ser humano se relaciona com a Natureza.
Para cada postal, o professor da Universidade de Coimbra, escolhe criteriosamente cada fotografia, muitas delas tiradas por si, durante as suas dezenas de expedições pelo mundo, adicionando-lhe uma mensagem. Além dos tradicionais votos de boas festas, Jorge Paiva oferece conhecimento a quem o queira ler. Mensagens que nos confrontam com problemas graves que ameaçam o nosso planeta, muitos deles resultantes da ação humana.
No seu conjunto estes postais constituem um testemunho singular de ativismo cívico, persistente e atento, construído ao longo de décadas, na esperança de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais consciente, mais respeitadora do ambiente e da biodiversidade — em suma mais sustentável.
As raízes
Nascido em Angola em 1933, foi aí que Jorge Américo Rodrigues de Paiva passou a sua infância. Licencia-se em Ciências na Universidade de Coimbra em 1958 e em 1959 ingressa no Instituto Botânico da Universidade de Coimbra, onde começa a trabalhar nas floras de Angola e Moçambique. Em 1993 obtém o doutoramento em Biologia pela Universidade de Vigo (Espanha).
Ao longo da sua longa carreira de biólogo, naturalista, professor e investigador, J. Paiva tem feito parte de grupos nacionais e internacionais de investigação que estudam e recolhem material vegetal, não só na Península Ibérica, mas também em África, Ásia e América, cultivando uma extensa rede de contactos e colaborações.
Mesmo reformado desde 1997, continua ativo, dedicando-se a tempo inteiro ao que mais o entusiasma, mas também ao que o preocupa e aos valores que defende, com intervenções assíduas na esfera pública, assinando artigos de opinião, publicando livros, e enviando postais de Natal!
Alguns dos postais enviados ao longo de 35 anos.
POSTAIS DE NATAL – OFERTAS À SOCIEDADE
“Carvalhais portugueses para onde vão?!”
Postal de Natal do ano de 1990
Foi com esta interpelação retórica que Jorge Paiva presenteou os seus contactos com o seu primeiro postal de Natal
Uma pergunta aparentemente simples, embora a resposta carregue consigo implicações vastas nos ecossistemas, na sociedade e na economia de um país como Portugal.
Enquanto país de clima mediterrânico, Portugal está naturalmente sujeito a um regime de fogos, cuja regulação depende grandemente do tipo de vegetação que cobre o seu território, nomeadamente pelo papel da distribuição dos carvalhais.
Na sua carreira de professor, Jorge Paiva lecionou em várias universidades, nacionais e internacionais. Enquanto taxonomista botânico trabalhou durante três anos nos herbários dos Royal Botanic Gardens, em Kew, e do então British Museum, em Londres (atualmente Natural History Museum). É responsável pela descrição de várias espécies para a ciência, a mais recente em 2024.
Nos postais de Natal, a taxonomia é um tema transversal a quase todos eles. Esta área do conhecimento que se dedica à classificação e descrição das espécies e suas relações evolutivas, surge na base do destaque feito a espécies endémicas, aquelas espécies que apenas são possíveis de encontrar em determinadas regiões limitadas do planeta; as espécies raras; ou espécies fundamentais ao funcionamento dos ecossistemas.
Espécies raras e endémicas
Quando uma espécie tem a sua existência e distribuição restrita a uma zona, diz-se que essa espécie é endémica desse local. Contudo, nem todas as espécies endémicas são raras e nem todas as espécies raras são endémicas. Apesar de nem todos os postais do Professor Jorge Paiva serem dedicados a espécies carismáticas ou emblemáticas, muitos deles destacam espécies raras, endémicas ou espécies que desempenham um papel fundamental nos ecossistemas, como os postais enviados no ano de 1993 e 2010.
Imagem à direita: Postal de 1993
Postal de 2010
Ser humano, natureza e recursos
Através dos temas abordados nos seus postais e das histórias que conta, Jorge Paiva procura aproximar quem os recebe à magnitude e abrangência da vida do nosso planeta, sublinhando e alertando para o papel das pessoas na saúde planetária e a disrupção que a espécie humana pode causar nos ecossistemas (Imagem acima – Postal de 1994).
Postal de 2004
Postal de 2015
Taxonomia e expedições
Como taxonomista de plantas, viajou pela Europa, principalmente pela Península Ibérica, pelas ilhas da Macaronésia, por África, pela América do Sul, pela Ásia e pela Austrália.
Decorrente da sua experiência foi um dos fundadores do projeto Flora Ibérica e colaborou também em muitas floras africanas (Catalogue des Plantes Vasculaires du Nord du Maroc, Conspectus Florae Angolensis, Flora de Cabo Verde, Flora Zambesiaca, Flora of Tropical East Africa, Flore du Gabon, Flore du Cameroun e Flora of West Tropical Africa).
Das diversas expedições a África em que participou destacam-se a longa expedição a Moçambique com António da Rocha Torre em 1963-64; mas também as expedições a São Tomé e Príncipe, muitas delas já depois de se reformar. Essa mesma experiência é aflorada em alguns dos seus postais, por exemplo no de 2011.
Muitos dos Postais que enviou ao longo dos anos foram ilustrados com fotografias da sua autoria feitas durante essas mesmas expedições científicas.
Imagem à direita: Postal de 2012
Postal de 2011
Sobre as expedições – Postal de 2023
Postal de 1999
Postal de 2013
Novas Palavras para Novos Desafios I
Entende-se por composição o processo de criação de novas palavras por junção de dois ou mais vocábulos, com a intenção imediata de criar uma palavra única.
Jorge Paiva recorre diversas vezes nas suas mensagens a termos compostos, muitos deles criativamente cunhados por si, designando problemas, definindo preocupações, ou materializando alertas. Muitas dessas palavras encontram-se nos postais que Jorge Paiva tem vindo a enviar no Natal. Termos como bioecocídeo, piroverões; ignisilva; dendrofobia, são apenas alguns desses exemplos.
Imagem à direita: Postal de 1995
Postal de 1997
Novas Palavras para Novos Desafios II
Piroverões (do grego pyros = fogo, incêndio): “Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. […] Façamos votos para que, ao fim de 3 décadas de incêndios florestais devastadores, os nossos governantes se capacitem que é fundamental estabelecer e incrementar o rápido ordenamento florestal do país e humanizar novamente as nossas montanhas, para acabarmos com os piroverões.” – Postal de 2005
Ignisilva (do latim ignis=fogo, ardente e silva = floresta)
“Assim, em vez da floresta nativa, os carvalhais, fagosilva (do grego phágos = carvalho e silva = floresta-), passamos a ter uma ignisilva (do latim ignis=fogo, ardente e silva = floresta)” – Postal de 2017
Dendrodescoberto (do grego dendron = árvore) – Postal de 2022
Amor e Humor I
A experiência global de Jorge Paiva apurou o seu sentido de missão com foco na natureza, impulsionando o seu trabalho como ambientalista e ativista. O amor que sente pelo ambiente e pela biodiversidade tem-no levado a escolas de todo o país para proferir palestras aos alunos de diversos graus de ensino, numa outra abordagem à sua urgência em passar o conhecimento às gerações futuras.
As suas excelentes capacidades de comunicação contribuíram para que, além de figura assídua em meios de comunicação tradicionais, o tenham tornado num conhecido educador em conservação e proteção ambiental nas escolas de todo o país, responsável por “recrutar” muitos alunos para as áreas das ciências naturais e ambientais.
Por esta atividade cívica em defesa da natureza já foi galardoado com diversos prémios por parte de organizações de conservação. Em 2023 foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade de Coimbra.
Imagem à direita: Postal de 2018
Amor e Humor II
Os seus Postais de Natal não são simples desejos de Boas Festas.
Os Postais de Natal são mais uma das plataformas de comunicação que Jorge Paiva utiliza para difundir conhecimento e fornecer o seu contributo para uma sociedade mais sustentável. Nos postais recorre muitas vezes ao humor, ao mesmo tempo que coloca o “dedo na ferida”, alertando para problemas que urgem ser resolvidos.
No postal de Natal de 1992, recorre precisamente ao humor para alertar para a desflorestação do Baixo Mondego, que empurrou as cegonhas para as estruturas verticais disponíveis nesse território, para lá construírem os seus ninhos: os postes de alta tensão.
Imagem à direita: Postal de 1992
Amor e Humor III
No postal de Natal de 1995, brinca com uma suposta “doença” para alertar para o mesmo problema: a desflorestação do Baixo Mondego. Doença essa que Paiva caracteriza como uma fobia a árvores. – Postal de 1995
Amor e Humor IV
O próprio é o protagonista do postal de Natal de 2002, colocando-se na “gaiola” onde vive – a gaiola global – espaço restrito do qual o ser humano depende e onde vive engaiolado. Tal como uma ave que vive em cativeiro necessita da sua gaiola limpa, também nós precisamos de manter a nossa “gaiola” limpa. Essa mesma analogia é utilizada no ano seguinte para alertar para a importância de assegurar uma correta gestão da água do planeta – que é sempre a mesma!
Gaiola gigante = “A grande maioria das pessoas não tem a perceção de que vivemos numa grande gaiola (Planeta Terra). Para sobrevivermos nesta gaiola global é fundamental mantê-la limpa. Não podemos continuar a abarrotar este planeta com lixo, senão acontecer-nos-á o mesmo que à ave engaiolada: a morte. Infelizmente a quase totalidade dos governantes e políticos desta gigantesca gaiola (Globo Terrestre) não tem a mínima consciência disso.”- Postal de 2002
Gaiola Global (Terra) – Postal de 2003
Amor e Humor V
Com a história de dois amigos que nos conta no postal de 2008, Jorge Paiva demonstra de uma forma muito simples como num deserto o dinheiro de pouco vale à sobrevivência de uma pessoa. Pelo contrário, um ambiente extremamente biodiverso fornece um manancial de recursos que assegura a vida dos ricos e pobres. Uma vez mais a tónica recai sobre a relevância de respeitar os ecossistemas, os seus ciclos naturais acautelando uma correta gestão dos recurso do planeta – e dessa forma do ser humano!
Imagem à direita: Postal de 2008
Mensagens festivas e votos de prosperidade ambiental – Postais de 1994, 1997, 1999 e 2000
Essas palavras tiveram em 2006 um destinatário particular. A atenção recaía na importância em reforçar o financiamento da ciência, em particular no estudo da Biodiversidade:
“Façamos votos para que, a partir do Novo Ano, o nosso Ministério da Ciência e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia apoiem fortemente projectos de estudo da Biodiversidade.” – Postal de 2006
As preocupações que levaram Jorge Paiva a iniciar esta jornada de criação e envio de postais a cada Natal não tiveram, infelizmente, eco significativo e resultados práticos. Isso conduziu ao desalento de a sua voz e as suas ofertas não terem encontrado solo fértil para alimentar a solução dos problemas.
No Natal de 2024, no seu entender, os problemas tinham-se mantido e muitos deles agravado e, por isso, o biólogo com 90 anos decidiu que aquele seria o último postal de Natal que enviaria.
Imagem à direita: Postal de 2024
Nunca desistir
A perseverança e resiliência, e talvez alguma teimosia, levam a que felizmente, também no ano de 2025 possamos contar, uma vez mais, com um postal de natal do Professor Jorge Paiva, o 36º postal.
35 Postais de Jorge Paiva




Consulte aqui todos os postais apresentados cronologicamente.


































































Ficha Técnica
Título: 35 Postais de Natal de Jorge Paiva – Exposição baseada nos 35 Postais de Natal criados, escritos e enviados pelo
Professor Jorge Paiva investigador do CFE – Centre for Functional Ecology, e do Laboratório Associado TERRA
Data lançamento: dezembro de 2025
Coordenação, textos e curadoria: Sofia Viegas
Revisão de conteúdos: Catarina Viegas
Autoria dos postais: Jorge Paiva
Digitalização dos postais: Ana Margarida Silva | Departamento de Ciências da Vida (DCV), Universidade de Coimbra
Grafismo: Laboratório Associado TERRA | Ação 360º
Financiamento: Este trabalho foi financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto LA/P/0092/2020

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